Do sonho ao pesadelo

No começo do ano de 2020, os investidores ainda usufruíam calmamente dos retornos históricos que o mercado acionista lhes vinha a proporcionar. Tinham passado mais de 10 anos que os mercados financeiros tinham conhecido a última crise a partir da qual tinham vindo a valorizar de forma generalizada. Esse período viria mesmo a ficar na história como o mais longo período de valorizações registado nos mercados.

Gráfico 1 – Valorização do S&P 500 nos últimos anos

O gráfico acima, referente ao principal índice de referência americano (o S&P 500) demonstra a tendência de subida que se vinha a registar ao longo dos últimos anos e que parecia imparável. No entanto, é amplamente aceite na comunidade de investidores que os mercados habitualmente se movimentam por ciclos, sendo eles:

Acumulação: Esta fase ocorre a seguir a crises económicas que causam desvalorizações massivas. Nesta fase uma pequena parte dos investidores começa a tomar decisões de compra por achar que o pior já passou, apesar de ainda imperar na generalidade do mercado, um sentimento pessimista;

Markup Phase: Período em que os mercados estão estáveis há algum tempo e a maior parte dos investidores resolve retomar as compras de ativos, impulsionados por um sentimento generalizado de otimismo;

Distribuição: Quando muitos investidores resolvem fazer mais valias vendendo as suas posições valorizadas;

Tendência de descida: Esta fase ocorre quando o preço devido à pressão vendedora desce de forma sustentada e prolongada.

Como se acabou por verificar, o primeiro semestre de 2020 trouxe consigo a transição de algumas destas fases. O acentuar das preocupações em torno do alastrar do coronavírus por todos os países do Mundo e os receios de que este viesse a ter impacto em todo o Mundo, cedo começaram a surgir. E, na verdade, foi uma questão de tempo. Algumas semanas bastaram para que o coronavírus se espalhasse por todos os países causando grande um impacto a nível económico. As medidas de confinamento impostas pelos governos, o decretar do fecho do comércio e a paragem de grande parte da produção industrial, colocaram as economias à beira de um precipício.

Seguiram-se acentuadas desvalorizações pelos mercados acionistas que colocaram fim ao bull market que durava desde 2009.

Gráfico 2 – Queda no S&P 500 devido à crise do coronavírus

O principal índice americano perdeu cerca de 37% ao longo de apenas um mês (entre 20 de Fevereiro e 23 de Março), período durante o qual, muitos investidores decidiram vender os seus investimentos (muitas vezes assumindo menos valias) com receio do que o futuro podia reservar. Na verdade, podemos dizer hoje que esta venda foi uma má decisão.

A Recuperação

Na semana passa, a Bull Sheet, newsletter distribuída pela prestigiada revista Fortune, começava da seguinte forma:

“Good morning, Bull Sheeters. We are officially in a new bull market. The S&P 500 closed at a record high on Tuesday, erasing all pandemic-induced losses from the past six months. Next stop: the U.S. futures are edging higher again this morning.”

Ao contrário do que muitos investidores previam, as desvalorizações causadas pelo coronavírus foram revertidas em pouco tempo. Tal como refere o texto acima transcrito, Terça-feira (dia 18 de Agosto) foi fixado um novo máximo no S&P 500 anulando assim todas as perdas recentes causadas pela crise do coronavírus. Deste modo, podemos dizer hoje que quem decidiu realizar menos valias (com receio de perdas maiores) no auge da crise acabou por tomar uma péssima decisão. Em cerca de 6 meses todas as perdas registadas no principal índice de referência americano foram anuladas.

Gráfico 3 – Recuperação do S&P 500 a seguir ao período de queda devido à crise originada pelo coronavírus

O que esperar dos próximos meses

Apesar de ser sempre difícil prever o futuro próximo nos mercados financeiros, a verdade é que existem motivos para estar otimista. A recente crise financeira causou o pânico generalizado em pouco tempo devido à incerteza do que poderia vir a acontecer nas economias e vida das pessoas em geral. Pela primeira vez, um Mundo globalizado cujas ligações entre países são muitas, ficou confinado em casa, com a atividade económica reduzida a mínimos históricos. No entanto, muitos investidores começaram a perceber que esta seria uma situação temporária. A atividade das empresas não iria parar para sempre, apenas iríamos atravessar um curto período de paragem. Adicionalmente, os apoios massivos às economias por parte dos governos de vários países, aliados ao progressivo aliviar das medidas de confinamento, criaram condições para que os investidores regressassem ao mercado.

O crescimento sustentado do tráfego aéreo e o progressivo aproximar aos valores habituais em igual período do ano de 2019, são um dos indicadores que permitem afirmar que o pior já poderá ter passado e a atividade económica se encontra a recuperar.

Gráfico 4 – Variação do tráfego aéreo na Europa comparado com igual período do ano passado. Fonte: https://www.eurocontrol.int/Economics/DailyTrafficVariation-States.html

A ocupação de mesas em restaurantes começa também a mostrar claros sinais de recuperação globalmente. Depois de uma descida de 100%, neste momento cerca de metade do fluxo de clientes encontra-se recuperado.

Gráfico 5 – Variação em % da ocupação de mesas em restaurantes em relação ao mesmo dia do ano de 2019. Dados globais. Fonte: https://www.opentable.com/state-of-industry

Estes constituem apenas dois exemplos de um largo espectro de indicadores que permitem estar otimista em relação ao futuro. O pânico inicial e as medidas de contenção adotadas parecem já fazer parte do passado, havendo assim condições para que os mercados continuem numa tendência de valorização.